domingo, 21 de março de 2010

Um Tango Argentino

Ombros colados pelas alamedas
Tremo como os viciados jogados na calçada
O calor febril e o suor frio
Tornam meus passos vacilantes

Os goles fartos de álcool
Recorrentes, constantes
Disfarçam a agonia com euforia
Porém por pouco tempo

Então
Toca logo este tango argentino meu amigo
Quero bailar com a morte
E rir de suas ironias sussurradas em meu ouvido

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Ego

Vem correndo
Fugindo da penumbra do anonimato
Mostrando um sorriso prostituído
Buscando luz num olhar admirador

Se interesse não é mostrado
Desdobra-se em piruetas
Basta um olhar interrogador
Para vomitar sua existência banal

Grita, salta, esperneia
Pendura-se no mais alto mastro
Exibe-se para todos
Que o ignoram

Aqui!
Macaco!
Tome sua banana
E enfie-a no cú!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Grilhões auto-impostos II

A bengala de um fracassado são seus sonhos não realizados.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Grilhões auto-impostos

Seres alados não são destinados a caminhar,
Porém afundam-se em lamaçais por influência das multidões rastejantes.
E suas asas,
Encharcadas de lodo,
Tornam a caminhada ainda mais penosa.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Desespero Nostálgico (encontrado num antigo baú digital)

Era um Sábado de tarde, lá pelas 5 horas, o clima estava ameno, pelo menos para ele, que gostava de tempo frio, os calafrios na espinha gerados por correntes repentinas eram uma das poucas coisas que faziam com que se sentisse vivo. De baixo a cima um raio pulsante de energia sensitiva, logo em seguida um chacoalhar de ombros e um gemido trêmulo de satisfação.

Desligou o computador e abriu sua gaveta de vinis, acariciou-os um a um até achar The Pros and Cons of Hitch Hiking, olhou um pouco para a capa e lembrou-se de On the Road, a loira e tentadora liberdade, vestida de vermelho ao lado de sua estrada, só esperando que ele parasse e a convidasse para entrar em sua vida. Tirou o disco cuidadosamente, uma soprada e encaixou-o lentamente no prato, depois o botão para começar as 33 rotações por minuto e finalmente a agulha, posicionada precisamente,lift down e pronto, chiados, estalos, um trovão e a música começava a se impor.

Suspirou profundamente e pegou um cigarro da carteira em cima da mesa, se ajeitou em sua poltrona e acendeu-o. Deu a primeira tragada, longa, como sempre a melhor, soltou a fumaça lentamente, uma nuvem densa de prazer mórbido. A música ia evoluindo, se misturando ao ar esfumaçado, que fugia sorrateiramente pela fresta aberta da janela. Esfregou os olhos com o polegar e o indicador, mais um suspiro e se revirou inquieto.

Puta que pariu, pensou, Puta Que Pariu, sussurou, PUTA QUE PARIU, gritou enfurecido. Levantou rápido e esbarrou no toca discos, um estrondo e então um “AAArrrggghhh!!!” característico de Roger Waters.

Andou até a janela e abriu-a por completo, se debruçou sobre ela e com os olhos fechados e a cabeça baixa deu mais uma tragada com toda a força, começou a tossir, e se misturando à tosse começou um riso compulsivo, como que num auto-sarcasmo dos mais cruéis. Jogou fora o cigarro e sentou-se no chão, de costas para a parede, com os joelhos dobrados, ainda com sua risada psicótica.

- Estou enlouquecendo! Estou pirando! Estou atolado nesta merda! – sussurou atônito.

Com um estrondo a porta foi arrombada e o apartamento violentamente invadido. Não pensou duas vezes, pulou pela janela do sétimo andar.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Desabo moribundo no sofá, aguardando pela morte de uma vida dentre tantas que enfrentei e enfrentarei. Escuto palavras de ordem, palavras que me tocam, que me questionam a inércia, que me questionam as razões. E eu não tenho resposta, não sei se de outra forma teria. Não acho direção, e os sinais eu sei são todos falsos. Mas nem mesmo na degradação destes eu acho sentido. Então te encontro por aí, pra me entorpecer, e depois eu me pergunto, é só isso que nos resta? É só isso que nos resta?

sábado, 10 de outubro de 2009

Num final de tarde, sábado, ensolarado porém agradavelmente frio, vaguei por diversas ruas na tentativa de buscar o inesperado. Passei por arvores e calçadas espanholas, onde pessoas sentavam-se no chão aguçando os sentidos auditivos e visuais para curtir o som e a imagem da música e dos camaradas. Continuei a vagar percebendo que hoje ali não era o meu lugar. Ruas silenciosas, onde jornais esvoaçantes me cumprimentavam na ausência de pessoas. Passei pelo centro velho, com seus decadentes edifícios e putas, sorrisos corroídos pela chuva ácida e narizes furados e agonizantes de cocaína. Grupos de pseudo-hipsters de boutique passavam com sua vulgaridade característica enquanto eu seguia meu caminho inconscientemente guiado às velhas lembranças. Acabei no banco da praça, da velha praça comprida e esmagada entre dois prédios que remetem ao clássico e ao moderno, numa eterna luta de estilos. Você chegou simultaneamente, logo estávamos ali, só nós dois, nos curtindo a frente do chafariz que evocava um gêiser constante em sua coluna caótica de água que nunca repete os movimentos dançantes na infinidade de possibilidades sonhadoras. A nossa volta casais e famílias passeavam devagar, comendo pipoca ou fazendo poses ridículas para fotos que só serviam de pretexto para mais um beijo cego de paixão. Crianças corriam e emitiam seus gritinhos de satisfação enquanto brincavam com balões, cãezinhos e pombos que executavam sua rotina de sobrevivência comendo as migalhas que velhos aposentados jogavam a sua volta, na esperança que alguém, mesmo que fosse apenas um animal pestilento, lhes desse atenção. Eu acariciava seu corpo delicado, puramente branco, enquanto você me olhava com a boca delicadamente entreaberta. Acendi um cigarro e vimos a fumaça misteriosamente se erguer esguia no ar na mesma freqüência que a água escorria pelas arestas do cimento pintado de amarelo. Não demorou muito para o beijo acontecer, doce, me enchendo de prazer, me rejuvenescendo, tornando minha vida mais aprazível. Curtimos mais uns momentos daquele transe e de repente você ficou amarga, como me rejeitando. Apareceu um sujeito estranho, ávido por te possuir, não vacilei em te entregar, e você também não demonstrou repulsa nem ressentimento, partiu com outro sem se despedir. Não importa, muitas outras eu encontrarei, e jogarei fora quando tiver sugado tudo que tiverem para me dar, deixando-as secas em alguma lata de lixo.