quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Grilhões auto-impostos

Seres alados não são destinados a caminhar,
Porém afundam-se em lamaçais por influência das multidões rastejantes.
E suas asas,
Encharcadas de lodo,
Tornam a caminhada ainda mais penosa.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Desespero Nostálgico (encontrado num antigo baú digital)

Era um Sábado de tarde, lá pelas 5 horas, o clima estava ameno, pelo menos para ele, que gostava de tempo frio, os calafrios na espinha gerados por correntes repentinas eram uma das poucas coisas que faziam com que se sentisse vivo. De baixo a cima um raio pulsante de energia sensitiva, logo em seguida um chacoalhar de ombros e um gemido trêmulo de satisfação.

Desligou o computador e abriu sua gaveta de vinis, acariciou-os um a um até achar The Pros and Cons of Hitch Hiking, olhou um pouco para a capa e lembrou-se de On the Road, a loira e tentadora liberdade, vestida de vermelho ao lado de sua estrada, só esperando que ele parasse e a convidasse para entrar em sua vida. Tirou o disco cuidadosamente, uma soprada e encaixou-o lentamente no prato, depois o botão para começar as 33 rotações por minuto e finalmente a agulha, posicionada precisamente,lift down e pronto, chiados, estalos, um trovão e a música começava a se impor.

Suspirou profundamente e pegou um cigarro da carteira em cima da mesa, se ajeitou em sua poltrona e acendeu-o. Deu a primeira tragada, longa, como sempre a melhor, soltou a fumaça lentamente, uma nuvem densa de prazer mórbido. A música ia evoluindo, se misturando ao ar esfumaçado, que fugia sorrateiramente pela fresta aberta da janela. Esfregou os olhos com o polegar e o indicador, mais um suspiro e se revirou inquieto.

Puta que pariu, pensou, Puta Que Pariu, sussurou, PUTA QUE PARIU, gritou enfurecido. Levantou rápido e esbarrou no toca discos, um estrondo e então um “AAArrrggghhh!!!” característico de Roger Waters.

Andou até a janela e abriu-a por completo, se debruçou sobre ela e com os olhos fechados e a cabeça baixa deu mais uma tragada com toda a força, começou a tossir, e se misturando à tosse começou um riso compulsivo, como que num auto-sarcasmo dos mais cruéis. Jogou fora o cigarro e sentou-se no chão, de costas para a parede, com os joelhos dobrados, ainda com sua risada psicótica.

- Estou enlouquecendo! Estou pirando! Estou atolado nesta merda! – sussurou atônito.

Com um estrondo a porta foi arrombada e o apartamento violentamente invadido. Não pensou duas vezes, pulou pela janela do sétimo andar.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Desabo moribundo no sofá, aguardando pela morte de uma vida dentre tantas que enfrentei e enfrentarei. Escuto palavras de ordem, palavras que me tocam, que me questionam a inércia, que me questionam as razões. E eu não tenho resposta, não sei se de outra forma teria. Não acho direção, e os sinais eu sei são todos falsos. Mas nem mesmo na degradação destes eu acho sentido. Então te encontro por aí, pra me entorpecer, e depois eu me pergunto, é só isso que nos resta? É só isso que nos resta?

sábado, 10 de outubro de 2009

Num final de tarde, sábado, ensolarado porém agradavelmente frio, vaguei por diversas ruas na tentativa de buscar o inesperado. Passei por arvores e calçadas espanholas, onde pessoas sentavam-se no chão aguçando os sentidos auditivos e visuais para curtir o som e a imagem da música e dos camaradas. Continuei a vagar percebendo que hoje ali não era o meu lugar. Ruas silenciosas, onde jornais esvoaçantes me cumprimentavam na ausência de pessoas. Passei pelo centro velho, com seus decadentes edifícios e putas, sorrisos corroídos pela chuva ácida e narizes furados e agonizantes de cocaína. Grupos de pseudo-hipsters de boutique passavam com sua vulgaridade característica enquanto eu seguia meu caminho inconscientemente guiado às velhas lembranças. Acabei no banco da praça, da velha praça comprida e esmagada entre dois prédios que remetem ao clássico e ao moderno, numa eterna luta de estilos. Você chegou simultaneamente, logo estávamos ali, só nós dois, nos curtindo a frente do chafariz que evocava um gêiser constante em sua coluna caótica de água que nunca repete os movimentos dançantes na infinidade de possibilidades sonhadoras. A nossa volta casais e famílias passeavam devagar, comendo pipoca ou fazendo poses ridículas para fotos que só serviam de pretexto para mais um beijo cego de paixão. Crianças corriam e emitiam seus gritinhos de satisfação enquanto brincavam com balões, cãezinhos e pombos que executavam sua rotina de sobrevivência comendo as migalhas que velhos aposentados jogavam a sua volta, na esperança que alguém, mesmo que fosse apenas um animal pestilento, lhes desse atenção. Eu acariciava seu corpo delicado, puramente branco, enquanto você me olhava com a boca delicadamente entreaberta. Acendi um cigarro e vimos a fumaça misteriosamente se erguer esguia no ar na mesma freqüência que a água escorria pelas arestas do cimento pintado de amarelo. Não demorou muito para o beijo acontecer, doce, me enchendo de prazer, me rejuvenescendo, tornando minha vida mais aprazível. Curtimos mais uns momentos daquele transe e de repente você ficou amarga, como me rejeitando. Apareceu um sujeito estranho, ávido por te possuir, não vacilei em te entregar, e você também não demonstrou repulsa nem ressentimento, partiu com outro sem se despedir. Não importa, muitas outras eu encontrarei, e jogarei fora quando tiver sugado tudo que tiverem para me dar, deixando-as secas em alguma lata de lixo.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Para Burroughs

Espasmos borbulhantes sulfurosos de liberdade explodem dentro do peito apertado de pseudo-melancolia advinda das correntes do comodismo barato. Um misterioso sorriso de gato se abre ao ler os conselhos duros, porém carinhosos do viajante da América do Sul em cut-ups alucinados de consciência expandida nos rituais indígenas e quartos bolorentos de hotéis baratos, presenciados por espectros com faces de caveira envoltos em serpentes coloridas recitando poemas sobre a morte com vozes bestiais de espíritos da floresta. A mente se excita e o corpo se energiza com sonhos loucos correndo a milhão por vias que se contraem em abstinência aguardando pelo orgasmo atômico de destruição para a auto-fecundação e nascimento de um novo ser, mutante. Onde estás? Não me escreves mais. Partirei em jornada pelos labirintos até encontrar-te em mim, plenamente iluminado.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Domingo a tarde II (Raul)

Estavam todos por alí, sentados na grama, sorrindo enquanto os últimos raios de sol acariciavam suas peles brancas, desacostumadas com a presença do astro. Uma celebração ao bom tempo, já que não temos mais colheita nem para quem agradecer. Alguns tinham os olhos amenos da tranquilidade, outros mal os mostravam de tanto que riam, outros fitavam apenas as mãos do violeiro, que jogava ao ar melodias de paz.

Muitos eram os que chegavam, alguns juntavam-se ao grupo a cantar, outros só olhavam de longe, com feições divertidas de quem está gostando do espetáculo mas tem vergonha de ser ator. Tanto dentro quanto fora, tinha gente que se importava com besteiras e gente que não se importava com nada. Eu só me importava em observar, ignorando os preconceitos. Que venham todas as línguas, todas as culturas, que venham novas pessoas, novos mundos.

Distraído com toda a festa não percebi, uma nova figura se aproximou. Jovem, alto, cabelo e barba encaracolados, na boca um sorriso tímido, seus olhos castanhos perdiam-se no horizonte, cheios de esperança, sem mágoa nem rancor, completamente honestos. Por alguns segundos não soube o que pensar, podia ter a roupa suja e o aspecto indigente, mas não tinha amargura. Era melhor do que muitos alí.

Uma guria levantou-se chamando-o pelo nome: Raul! Na face estampada a alegria e a satisfação de encontrar alguém querido. Expressão acentuada por sua bela maquiagem e cabelo vermelho curto. Deu-lhe um breve abraço e olhou-o nos olhos ainda sorrindo. Enquanto perguntava como estavam as coisas alcançou-lhe uma garrafa. Os dois desceram um pequeno morro conversando e não ví para onde foram, na minha mente estava estampada a face de Raul, seus olhos inocentes e sonhadores, felizes.

Muitos poderíam dizer que ele era apenas um louco e ela uma excêntrica. Mas eu percebi a verdade naqueles olhares, percebi a autenticidade. No mesmo día presenciei estupidez e ódio, fiquei a me perguntar: quem eram de fato os loucos?

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A Vida (Como conduzi-la, ou como não)

Conselhos com relação à forma que se deve conduzir a vida são completamente inúteis e consequentemente devem ser desconsiderados por aqueles que pretendem ser fiéis a sí mesmos e suas escolhas.

Supondo que ninguém se encontra satisfeito com sua condição atual, almejando tornar-se diferente do que é no momento, na eterna sensação de insatisfação e ambição, os conselhos de qualquer pessoa são reflexos de frustrações ou vontades. Ao seguir conselhos o ser torna-se parecido com a imagem criada pelo conselheiro, alcançando uma condição sonhada por este, que por não ser real e muito menos embasada na consciência do aconselhado tem uma probabilidade mínima de ser eficaz.

A única forma sensata de se tomar decisões na busca de resultados aprazíveis é a desconsideração de conselhos e fórmulas pré-estabelecidas. O ser deve analisar tanto experiências quanto pensamentos alheios, e através do questionamento elaborar suas próprias verdades, provadas por meio da experiência própria. Cada ser é único, percebe o mundo de forma diferente, reage ao mesmo distintamente. Dois mais dois pode perfeitamente ser cinco.